E se o exercício físico for o melhor antidepressivo?

Um estudo científico pioneiro, feito no Porto, conseguiu resultados internacionalmente aplaudidos. Receita: exercício físico convicto

Após o dia de trabalho, José Carlos Pereira, 37 anos, deixa os filhos em casa, calça os ténis, e volta a sair à rua para caminhar “Santa Rita acima, Alto da Maia para baixo”. Quando chega para jantar, já palmilhou cerca de cinco quilómetros.

Regressa “como novo”. Tanto que as sete tomas diárias de antidepressivos necessárias para “tratar” uma depressão diagnosticada há nove meses foram gradualmente reduzidas. O antídoto, acredita, foi “andar a pé”. Diz-se renascido.

“Deu-me uma funcionalidade diferente e fiquei com vontade de viver.” José foi um dos 33 doentes com depressão moderada a grave que integrou um estudo pioneiro no País. Durante três meses, o Hospital Magalhães Lemos, a Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e a Universidade do Minho avaliaram a eficácia do exercício físico como auxiliar da farmacoterapia. O projeto, coordenado pelo psiquiatra Jorge Mota Pereira, serviu de base à sua tese de doutoramento em Psicologia do Desporto e deu bons resultados. Após aqueles três meses a caminhar durante 45 minutos, cinco dias por semana (um dos quais no ginásio do hospital), 26% dos doentes regressaram ao estado normal (ou atingiram a remissão, na linguagem psiquiátrica) e 21% ficaram bastante melhor.

Os resultados foram apresentados, há dias, em Viena, Áustria, no Congresso Europeu de Psiquiatria. Antes, o estudo já recebera o primeiro prémio, no Congresso Nacional de Psiquiatria. Foi ainda publicado no Journal of Psychiatric Research, uma das revistas científicas internacionais da especialidade mais bem cotadas.

DO SUOR AO CÉREBRO

“Nunca mexemos nos fármacos”, avisa Mota Pereira, que quer provar como a prática de exercício físico pode potenciar os efeitos dos remédios ao libertar “substâncias químicas cerebrais idênticas às dos medicamentos”, nomeadamente serotonina, noradrenalina e dopamina, as que são ativadas pela toma de antidepressivos. A ginástica escolhida foi a caminhada, mas podia ter sido outra.

“Adaptámo-nos à população, ao que é viável e não tem custos, como andar a pé onde desse mais prazer.” O psiquiatra ressalva que os doentes escolhidos, cuja média de idades andou pelos 47 anos, eram resistentes ao tratamento e, por isso, dos que mais despesas implicam para o Estado. “Ficam mais tempo de baixa, sofrem de doenças cardiovasculares e diabetes, devido ao sedentarismo.” Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais.

Dois milhões de pessoas sofrem de depressão, a maioria mulheres. Dados da Organização Mundial de Saúde indicam que, em 2020, essa será a patologia que mais despesas acarretará para o Estado.

Na experiência de que aqui se fala, o grupo que continuou apenas a fazer medicação antidepressiva não registou qualquer melhoria ou remissão. Face aos resultados, Mota Pereira defende uma espécie de programa nacional que facilite a adesão dos doentes. “Este estudo é só uma semente”, diz. “Não compensará criar centros de exercício físico?”

NOVO ‘FULGOR’ PARA A VIDA

Não foi fácil convencer os 33 doentes acerca dos benefícios do exercício físico. Os dados foram monitorizados, em cada um, com o uso de um cinto (acelerómetro), para registar a distância da caminhada ou a perda de índice de massa corporal. No início, foi difícil a A.P., 58 anos, acreditar. Polimedicado há mais de um ano, com 14 tomas diárias de fármacos, de baixa médica e uma tentativa de suicídio, este engenheiro já deu a mão à palmatória: os percursos a pé transmitiram-lhe “um outro fulgor para a vida”.

Emagreceu seis quilos, respira melhor (era fumador compulsivo) e regressou, estimulado, ao trabalho.

Também Helena Tavares, 55 anos, encarou a vida de outra maneira. Ela, que “nem sabia o que era exercício físico”, deixou de estar horas a fio sentada no sofá “a olhar para o nada”, frustrada e deprimida, após a saída de casa do último filho. Os ténis passaram a calçado de eleição. Agora, desloca-se a pé para quase todo o lado. “A minha vida mudou completamente”, conta esta ex-secretária, desempregada. Depois da experiência, reduziu a medicação, ganhou “paz de espírito” para brincar com os netos e já não dispensa o ginásio.

Houve, contudo, quem desanimasse, quando deixou de integrar o grupo de estudo. Como A.P., que voltou à baixa médica. “Veio o inverno e o tempo não convida a caminhadas. Comecei a subir e a descer as escadas dos dez pisos do edifício onde moro, mas o segurança estranhava aquilo. Inscrever-me no ginásio, onde todos parecem estar mais de saúde do que eu, era frustrante…” Sentiu a falta do cinto “Era como o nosso polícia “, das aulas no ginásio hospitalar, de “preencher diariamente as folhinhas” (onde apontava os dias e locais das caminhadas).

Continua a não acreditar que caminhar seja suficiente para curar uma depressão mas, naquela altura, “a medicação tinha mais efeito”, diz.

Sónia Granja, a professora de Educação Física que orientava a aula no ginásio, foi a primeira a sentir os benefícios nos pacientes: “Perda de peso, tonificação, controlo da respiração…” Sugeria-lhes “dicas” para impedir a desistência, como colocar as sapatilhas no hall da entrada de casa, marcar a hora no despertador ou afixar um lembrete na parede. Quem seguiu estes conselhos, manteve a prática desportiva e viu a vida a melhorar. José Carlos Pereira passou de taqueiro precário a motorista de táxi, deixou de fumar e emagreceu 13 quilos. Continua a andar a pé (às vezes, até no parque de táxis) e de bicicleta. “São coisas simples, não se gasta dinheiro.” Em sua opinião, os governantes deviam pensar a sério nisto.

“Temos tantos pavilhões às moscas…”, diz, de fato de treino vestido.

Joaquim Ramos, diretor clínico do Magalhães Lemos, acredita existirem, agora, “um fundamento e uma evidência ” das vantagens do exercício. “Os remédios são importantes, mas não fazem tudo. Costumo dizer que os fármacos estão para a doença como as muletas para a ortopedia.” Para este médico, o estudo em causa pode ser o começo de algo. “Andamos sempre à procura do excecional e esquecemo-nos do que está ao nosso alcance.” Há dias, na Áustria, Mota Pereira ficou entusiasmado com o interesse demonstrado pelos seus pares a nível mundial. De lá, trouxe a possibilidade da realização de um estudo mais alargado, envolvendo Portugal e a Austrália.

“É histórico, para a Psiquiatria nacional”, resume.

Fonte: Visão

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